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Dados são o novo ouro? Negociação bilionária mostra por que informação virou ativo estratégico das empresas

Possível venda da YipitData por mais de US$ 2,5 bilhões chama atenção para um mercado que cresce silenciosamente: o de empresas capazes de transformar grandes volumes de informações em inteligência para decisões de negócios.

 

Durante os últimos anos, boa parte da atenção em torno da inteligência artificial esteve concentrada em modelos cada vez mais avançados, chips de alta capacidade e bilhões de dólares investidos em infraestrutura. Mas uma possível negociação bilionária nos Estados Unidos está colocando outro elemento no centro da discussão: os dados.

A Carlyle avalia alternativas estratégicas para a YipitData, empresa americana especializada em transformar grandes volumes de dados em informações utilizadas por investidores e companhias para compreender mercados, concorrentes e comportamento de consumidores.

Segundo informações publicadas pela Reuters, uma eventual negociação poderia avaliar a companhia em mais de US$ 2,5 bilhões.

A empresa, fundada em 2010, pode gerar aproximadamente US$ 280 milhões em receita recorrente anual em 2026, com crescimento superior a 30%, segundo fontes ouvidas pela Reuters.

Os números chamam atenção não apenas pelo tamanho da possível transação. Eles ajudam a ilustrar uma transformação mais ampla na economia digital: empresas estão descobrindo que possuir tecnologia é apenas parte da equação. Saber coletar, organizar, interpretar e transformar dados em decisões pode ser igualmente valioso.

“Durante muito tempo, as empresas concentraram esforços em acumular informações. Hoje, a discussão é diferente. O verdadeiro valor aparece quando conseguimos transformar esses dados em conhecimento capaz de orientar uma decisão, melhorar um processo, reduzir uma ineficiência ou identificar uma oportunidade de negócio.”

— Guilherme Mattos

O que uma empresa de dados vende, afinal?

A YipitData atua em um segmento conhecido como alternative data, ou dados alternativos.

O termo é utilizado para informações obtidas fora das fontes financeiras e empresariais tradicionais. Podem entrar nessa categoria dados relacionados a transações de consumidores, preços praticados na internet, tráfego de websites, utilização de aplicativos e diferentes sinais digitais produzidos pela atividade econômica.

Separadamente, essas informações podem dizer pouco. Quando grandes conjuntos de dados são organizados, combinados e analisados, porém, podem revelar tendências difíceis de perceber pelos métodos tradicionais.

Imagine, por exemplo, uma rede varejista. Antes da divulgação de seus resultados trimestrais, diferentes sinais podem ajudar a indicar o comportamento do negócio: movimentação de consumidores, alterações de preços, vendas digitais, interesse por determinados produtos ou mudanças no tráfego online.

A questão deixa de ser simplesmente quantos dados existem e passa a ser quais perguntas podem ser respondidas a partir deles.

O desafio também existe dentro das empresas

Embora companhias como a YipitData tenham construído negócios utilizando informações externas, parte importante da oportunidade está dentro das próprias organizações.

Empresas produzem diariamente enormes quantidades de dados sobre vendas, faturamento, clientes, estoques, produtividade, atendimento, custos e desempenho operacional.

O problema é que essas informações frequentemente estão distribuídas por diferentes departamentos e sistemas.

A área comercial pode possuir uma visão do cliente. O financeiro, outra. O atendimento registra reclamações em uma terceira plataforma. A operação utiliza indicadores próprios. Em alguns casos, controles importantes ainda dependem de planilhas mantidas separadamente.

Nesse cenário, ter muitos dados não significa necessariamente possuir boa inteligência empresarial.

Para Mattos, esse é um dos motivos pelos quais conceitos como Data Governance, Business Analytics e Operational Intelligence ganharam relevância.

A expansão da inteligência artificial adicionou uma nova dimensão a essa discussão.

Se diferentes empresas passam a ter acesso a modelos de IA cada vez mais poderosos, uma possível fonte de diferenciação está justamente nas informações utilizadas por esses sistemas.

Dois concorrentes podem utilizar tecnologias semelhantes e obter resultados completamente diferentes caso um deles possua dados mais confiáveis, relevantes e organizados.

É também por isso que empresas que passaram anos realizando o trabalho menos visível de coletar, estruturar e analisar informações começaram a ocupar uma posição estratégica no ecossistema de IA.

A própria YipitData é anterior ao atual boom da inteligência artificial generativa em mais de uma década. Seu negócio não nasceu com o ChatGPT. O que mudou foi o ambiente em torno dele.

Ferramentas de IA agora conseguem analisar volumes de informação em uma velocidade difícil de imaginar poucos anos atrás. Mas continuam dependendo da qualidade e relevância do material que recebem.

“Quanto maior a capacidade tecnológica de analisar dados, maior também é a importância de saber de onde esses dados vieram, se são confiáveis e se realmente representam aquilo que a empresa pretende analisar.”

— Guilherme Mattos

E o que isso significa para empresas brasileiras?

A discussão não está restrita às grandes empresas de tecnologia ou ao mercado financeiro americano.

Para uma pequena ou média empresa brasileira, dificilmente a questão será construir uma plataforma de dados avaliada em bilhões de dólares. Mas o princípio econômico é semelhante.

Uma distribuidora pode utilizar seu histórico de vendas para identificar padrões de demanda. Uma empresa de serviços pode analisar deslocamentos, produtividade das equipes e rentabilidade por cliente. Uma indústria pode combinar dados de produção, desperdícios e manutenção para identificar gargalos. Um varejista pode cruzar comportamento de compra, estoque e margem para compreender quais produtos realmente contribuem para sua rentabilidade.

Em todos esses casos, o valor não está simplesmente no banco de dados. Está na capacidade de transformar registros operacionais em informação útil para uma decisão empresarial.

E isso é particularmente relevante para pequenas e médias empresas, que muitas vezes não possuem grandes equipes dedicadas exclusivamente a Data Science ou Business Intelligence.

Dados podem ser ouro – mas apenas depois de refinados

A comparação entre dados e petróleo se tornou popular na economia digital. A ideia é intuitiva: assim como uma matéria-prima precisa ser processada antes de adquirir maior utilidade econômica, dados brutos precisam ser organizados e analisados.

Talvez, porém, a possível avaliação bilionária da YipitData permita atualizar a metáfora.

Dados podem ser o novo ouro – mas acumular minério não torna ninguém rico.

O valor está no processo que transforma aquilo que inicialmente parece apenas uma enorme quantidade de informação em algo que uma empresa consegue utilizar.

Esse processo envolve qualidade dos dados, governança, estatística, tecnologia, conhecimento do negócio e capacidade analítica.

Se a YipitData chegar ou não a ser vendida por mais de US$ 2,5 bilhões ainda dependerá das negociações.

Mas o interesse em torno da companhia já ajuda a mostrar uma mudança importante: em uma economia na qual ferramentas de inteligência artificial tendem a se tornar cada vez mais acessíveis, dados relevantes, confiáveis e transformados em inteligência podem se tornar uma das principais fontes de diferenciação entre empresas.

E talvez seja justamente aí que esteja o verdadeiro “ouro”.

REVISTA NEGÓCIO